quinta-feira, 5 de novembro de 2009

o dia mais quente do ano

Hoje lembrei do Jesrael, que morreu em abril. Lembrei de uma ocasião em que estávamos na praia, por volta de 98, ele tocando seu violão e fumando um, eu olhando o mar. Eu estava um pouco melancólico neste dia, o que já era bem comum naquela época, e comentei que pensava em ter um cachorro.

- Cachorro é coisa de velho, François! Negócio é aventura, romance, conquista!

Na hora dei uma risada e concordei com gosto, até porque entendi que ele estava querendo levantar meu entusiasmo. E desisti do cachorro, pelo menos naquele momento.

Não sei porque lembrei disso justamente hoje. Deve ser por causa do calor, que me deu vontade de estar na praia e não percorrendo as ruas abafadas do Centro trajando uma calça comprida e essa minha cara que cada vez mais é a cara de um Oficial de Justiça.

Ou talvez seja porque semana passada morreu o Carlão, que era um cara lá do serviço com quem eu gostava de papear. Ele era um tipo bem peculiar. Um pouco gordo, já avançado na idade, passava o dia numa mesa da sala de distribuição, mesa sem computador, que ele não sabia nem ligar. Era meirinho como eu mas fazia interno, não sei bem por que acerto, parece que tinha problema de saúde e não podia fazer esforço físico, então arranjaram uma tarefa pra ele na distribuição. Tarefa bem significativa, aliás, a mesa dele ficava do lado dos escaninhos das áreas da cidade, que é a primeira triagem dos mandados lá no setor e o trabalho dele era pôr cada mandado no escaninho da área do endereço que nele constasse. Dali eles eram separados por logradouros próximos e distribuídos aos Oficiais. Ou seja, tudo que chegava passava pela mão do Carlão e era aí que vinha a ocasião pra boas conversas, porque este cara, ainda não o disse, era muito observador e bem humorado. A gente sempre podia contar que ele tivesse naquele dia selecionado alguma extravagância que ele bateu o olho antes de pôr o escaninho. Como apreciava uma boa piada, não raro deixava um pouquinho o mandado ali na mesa só pra mostrar pra alguém que fosse passar. Terminado o serviço habitual dele, o que não demorava muito, ficava sentado na mesa observando tudo que se passava, a espera de uma mancada ou maluquice de alguém para fazer pilhéria. Se tudo tivesse quieto demais, pegava o telefone e ligava pra portaria, começava a dar esporro nos vigilantes, que já conheciam ele e davam também umas boas risadas. E tudo isso com cara de sério, ele mesmo nunca ria, a gente é que se acabava.

Mas volta e meia tava doente, e a mesa dele ficava vazia uns dias. Numa dessas voltou mais magro, mas com o mesmo bom humor. Depois sumiu mais uns dias, voltou, sumiu de novo. Foi demorando, disseram que ele estava no hospital muito grave, falou-se em ir visitá-lo, considerou-se que era melhor não importunar a família, não sei o que deu, passou-se o tempo. Semana passada vi no mural o anúncio da missa de 7º dia, pra ver como eu sou desligado. Tinha perdido o enterro. A missa ia ser no dia 4, ontem. Acabei não indo. Porquê? Na hora resolvi não ir. Sempre fui a enterros, não perdi o de nenhum conhecido, um tanto que achava meu dever. Mas ontem me indaguei, o que tem que ver Carlão com missa? O que eu tenho que ver tanto e só eu com a morte? Conheço gente que não tem coragem de passar perto de um cemitério, que não foi a enterros que eu fui sendo mais amigo do morto só porque não queria ver de frente o fato. Porque eu sempre vou? Resolvi, não vou, desta vez não vou. Não fui. Nada mudou. O Carlão tinha morrido, o dia estava quente, de noite era Grêmio e São Paulo, e aquela garota não ia mesmo voltar pra mim. Isso foi ontem. Hoje lembrei do Jesrael.

Porque hoje, neste calor que deveria ser testemunhado à beira do mar e não na Avenida Rio Branco, dez anos depois daquela conversa na praia, eu pensava o que o Jesrael diria, agora que eu de fato tenho um cachorro e levo uma vida com pouca aventura, romance ou conquista. Talvez com nem pouca, talvez com nem nada disso, só uma vida. E então concluí, não diria nada, pois está morto. Dez anos se passaram, desde que eu dei aquela risada, eu tenho um cachorro, Jesrael morreu, o Carlão também, e estou aqui sozinho escrevendo novamente sobre a morte. Sozinho pode ser que não, está aqui o cachorro, que não tem muito a dizer sobre o assunto e prefere ficar deitado na frente do ventilador. Certo é ele, que vai morrer um dia e deixar o ventilador aí ventilando para ninguém. Certo era o Jesrael, que morreu pela vida que queria levar, e o Carlão, que deve ter constatado a graça disto tudo lá na UTI. Eu vou mais é ler aqui o Wittgenstein, antes que a minha hora também chegue.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Na verdade penso ser o contrário, Mallarmé, toda a metafísica do acaso jamais abolirá o arrojo de um lance de dados, por mais prosaico que ele seja.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Justiça do Paraná autorizou homossexual a adotar apenas criança com mais de 12 anos, para que ela possa opiniar. Critério interessante que poderia ser aplicado não só nos casos de adoção mas de filiação em geral. A criança ficaria na FEBEM até os 12 anos e então se perguntaria se ela gostaria de ir viver com um pai heterossexual mas que fosse também alcoólatra, cocainômano, violento, pedófilo, corrupto ou cafetão, como há tantos por aíautorizados a (de)formar os próprios filhos. Vou te contar, não consigo entender como essa Promotora conseguiu escapar de ficar retida em algum hipódromo...

sábado, 19 de setembro de 2009

O Globo: "Como Polegar, cinco outros chefes do tráfico estão perto da liberdade"

Muito escrota a direção que a imprensa está dando para essa discussão. Está se criando a idéia de que a progressão do regime da pena criminal é uma coisa ruim em si mesma. não é. O apenado tem que ter perspectivas de melhora para se motivar à reab...ilitação. Se o Polegar chefiava o tráfico de dentro da cadeia, cometia crime e não tinha, portanto, direito à progressão para semi-aberto. Só que isso tem que ser provado, não basta a imprensa dizer que é algo "público e notório". A quem cabe provar isso? À Secretaria de Segurança e suas respectivas unidades policiais. Não o fez, e o Secretário vêm à Imprensa culpar a lei, que neste caso é sensata, pela sua própria incompetência. E a Imprensa engole e regurgita, porque tem que veicular o falatório e a compreensão superficial dos fatos para vender papel. Como diz o Bernardo, pra isso não precisa de diploma mesmo. Ao menos serve para as necessidades fisiológicas do meu cachorro.

domingo, 13 de setembro de 2009

Todos os conceitos de virtude os homens elaboraram a partir de seu convívio com os cães. Entre os próprios homens não haveria oportunidade para se observar coisas tão sublimes.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Aqui na minha rua atua um ladrão de veículos muito incompetente. A todo o momento dispara um alarme de carro ou de moto. Um é só buzina, o outro parece sirene de ambulância, tem pra todos os gostos e desgostos. Fica lá tocando uma era. Quando enfim acaba, dá uns dez minutos, começa outro. Eu fico pensando em investir nesse rapaz, pagar-lhe uns cursos de furto de veículo lá no Paraguai, até pra ver se ele leva embora estas merdas destes carros e motos que não param de fazer barulho.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

G1: Italiano é preso por beijar a filha na boca em barraca de praia no CE

Eu acho que essa cultura do ocidente ainda não está à vontade com a liberdade sexual, embora não tenha consciência disso. Daí que tem dois sintomas que parecem inconsistentes, mas só parecem: o primeiro é uma erotização excessiva de diálogo simbólico, o que se manifesta hoje no marketing e na publicidade; se usa o corpo feminino pra vender tudo, de cerveja e carro (boa combinação) até cursos de línguas e universitários e capas de revistas que não são deliberadamente eróticas; claramente é o modo de dizermos que somos liberados e que na verdade leva a um fastio e indiferença do sexo, como aquele negão que ignorava o umbigo desnudado da beldade ao seu lado no baile de Carnaval na TV, relato impressionado de Nelson Rodrigues.

O outro sintoma é esta paranóia da pedofilia. Parece que temos o dever de proteger as crianças de uma suposta degradação em que nós mesmos vivemos com nossos corpos. Nos Estados Unidos, segundo ouço relatos de quem chega de lá, é uma aberração um adulto passar a mão na cabeça de uma criança que ele encontra na rua. A criança chora e os pais da mesma vêem aquilo com maus olhos. Um brasileiro por lá bem poderia se meter numa situação infeliz como a desse italiano. Ora, quer se proteger a liberdade sexual da criança recusando-se que ela tenha uma esfera de afeição a ser vivenciada também através do corpo. Se isto é já ou não um grau atenuado da sexualidade a se desenvolver para o bem ou para o mal, deveríamos refletir serenamente a respeito e não exigir de cada pai que crie o seu filho numa bolha, desconsiderando inclusive as diversas nuances culturais da manifestação do afeto que estão em curso em comunidades em que as pessoas estão de boa fé.

Fala-se no congresso num projeto de lei considerando crime quem fizer sexo com adolescentes menores de 18 anos, como se adolescentes não fossem fazer sexo entre si de qualquer maneira. Creio que falta nesta perspectiva que está estabelecida sobre sexo e infância uma noção de que a violência e o abuso envolve o modo de significação dada pelo ofensor e a vítima. Um pai ou mãe que dá banho em seu filho recém nascido e, como é necessário, lava seus genitais, está cometendo um abuso? é óbvio que não. Entender esta semântica é o mais complicado neste tipo de crime, pois exige que se aprecie todo um contexto de circunstâncias que mostrem que aquele gesto se dirige a atuar sobre o corpo da criança de um modo a que ela, por sua constituição física e psíquica e formação, não está apta para ser estimulada, coisa que a criança muitas vezes sabe testemunhar com precisão. O exame destas circunstâncias, de qualquer modo, é complexo e envolve muitos fatores ambientais do ofensor e da vítima, não é coisa que se constate à beira da piscina.

Só sei que este cara está preso a título de estuprador e que ele não é malandro de cadeia. não queria estar na pele dele. Tudo porque já temos Batmen por aí a cada esquina policiando o gesto, a afeição e, vamos ser claros, também o sexo. Ainda tememos o sexo, ainda o consideramos uma coisa ruim da qual se preservar as gerações futuras.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma tela a óleo no meu quarto está danificada. Há um pequeno furo nela. É impossível recuperar, me parece. Era uma tela que eu gostava muito. Isso tirou o meu sono, apesar de eu estar bem cansado agora.

Perto de onde estava a tela é a porta. E falta umas lascas da madeira. O apartamento é alugado e quando eu cheguei estas lascas não estavam lá. Não sei como vou consertar isso, como se repara madeira. Não é que nem cimento, não se enfia madeira mole ali e espera secar. Talvez seja irreversível também. Isso eu já tinha observado fazia uns dias. E já não durmo bem um tanto assim de tempo, embora eu não saiba se é exatamente isto o que tem me tirado o sono.

Junto à porta há uma cômoda. Nela estão faltando três gavetas de seis. Elas foram despedaçadas por alguém furioso que as usou para danificar a porta e a tela. Não era propriamente a intenção causar os danos físicos. O que se pretendia era atacar algo que não poderia ser atacado mesmo que estivesse lá. Sei quem fez tudo isso. Tento esquecer faz uns dias e acho que é isto que não me deixa mais dormir bem.

Neste quarto dormia um homem triste mas sensato. Ou pelo menos ele pensava ser sensato. Ele se viu furioso por causa de uma mulher que talvez nada tenha feito de errado. A mulher gostava dele, mas talvez não gostasse. Queria ficar com ele, mas talvez não quisesse, Disse que viria naquele dia, mas não veio. Como muitas outras. Que há de errado nisso? Porque só agora gavetas, portas e quadros são consumidos na surpreendente solidão do homem triste e, agora o sabe, insensato?

O homem tentou se acalmar e acreditar que não estava tão só. A mulher também tentou melhorar, mas não conseguiu sair detrás de sua interrogação. Entre o homem insensato e a mulher ambígua houveram afinal palavras afiadas que deixaram suas marcas. Marcas irreversíveis. Não sei mais a justiça desta fúria e destas palavras. Ela também, ao seu modo, deve ser muito só, presa na sua indefinição. O homem, se fosse, de fato, sensato, teria se desviado naturalmente desta miragem. Não importa mais. Estes danos sim, não podem mais ser reparados e talvez seja melhor nem tentá-lo, só me desviaria do que posso efetivamente fazer de bom agora.

A cômoda tinha um problema recorrente de mofo no interior. Com as gavetas faltando, fica arejada o tempo todo, o problema do mofo acabou. A tela continua na parede, o furo está lá mas não é tão evidente, e continua uma pintura muito bonita. A porta, não sei, no último caso, mando fazer outra, do mesmo material. Deve ser muito caro, mas posso ficar devendo. Mas a paz do homem triste, que me dói apontar quem o seja, esta é mais difícil de se reintegrar. Talvez fosse uma paz muito frágil, de vidro muito fino e transparente. Talvez fosse uma paz ambígua, como a afeição da mulher. Mas era a que ele tinha e agora não tem mais. Juntar os cacos pode não ser profícuo. Começar a construir uma nova é o mais honesto e, se ainda possível, sensato. Mas a partir do quê? Do que é feita a serenidade? Monta-se como quem empilha tijolos? Peças de quebra-cabeças? Para se ter paz é preciso olhar mais pra longe, lançar o golpe de vista que alcança toda a imensidade de si próprio, ao invés de ficar juntando as pecinhas miúdas do simulacro de si mesmo. Se isto é possível, as miragens se desvanecem naturalmente. Amanhã tenho muito o que aprender. E agora, afinal, posso dormir.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Como 'tô sem inspiração, toma aí mais um peanuts.

Eu acho que vou logo voltar a ser criança. O adulto não faz sucesso com as mulheres mesmo.

Peanuts

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

o sonho dos que não dormem

Por essa hora eu ligaria pra ela, como fazia todos os dias, pra saber de tudo dela e pra contar tudo de mim. Como foi o dia dela, como foi o meu, o que ela gostou, o que foi legal, o que não foi, os planos pro dia seguinte. Depois conversávamos sobre coisas tolas, que eu só queria mesmo era ouvir mais um pouquinho da voz dela, ela tinha um sotaque próprio do outro lado da cidade, o "s" levemente acentuado para o "x". Eu adorava. Depois a gente se dava boa noite e eu ia pra cama dormir acalentado pela idéia de que ela fazia o mesmo, sonhando com o dia em que ela pudesse dormir aqui comigo. Por incrível que pareça, é do que mais sinto falta, só de falar com ela e acreditar que ela gostava de mim.

Não sei quando foi que eu comecei a entender como tudo era impossível, se já desde o começo, desde a primeira vez que a vi já não estava decidido no destino que ela estaria sempre um pouco mais distante. Quando foi que minha afeição quase pueril foi se tornando desejo cada vez mais ardente e cada vez mais difícil de aplacar? quando foi que comecei a sentir que nada sem ela me bastava? que eu precisava dela sempre um pouco mais? Porque eu ousei me dar conta do quanto eu precisava de todo aquele infinito que ela trazia dentro de si? Quando foi que ela me disse "não" pela primeira vez? Quando foi a primeira vez em que eu a odiei por isso e logo depois me arrependi?

Hoje eu fico olhando uma só foto que restou dela, bem pequena, e fico imaginando uma chance pra nós dois que não pode ser mais chance. Fui bruto com ela e a mandei espalhar-se por todos os labirintos do mundo, pra que eu nunca mais a conseguisse encontrar pelo seu fio de Ariádne. Nunca mais se reencontra alguém depois de algo assim. Eu olho a foto dela e vejo que ela era bonita demais, bonita demais para gostar de mim, tão bonita que me desespera. Lembro do carinho que ela me fazia quando eu estava triste por ela não gostar de mim, um rostinho sério e um olhar doce, e vejo que ela era inocente demais, inocente demais para gostar de mim. Sinto uma falta abissal, que ficou no lugar do desejo que era demais, que explodiu em fúria e agora vai minguando num lugar ermo e perdido dentro de mim, e vejo agora que ela era impossível demais, impossível demais pra mim.

Penso em ver algum filme antigo, um desses músicais em que Fred Astaire e Ginger Rogers dançam bem afinados e terminam juntos no final. Eu não sei dançar, talvez por isso um filme assim tenha algo de ainda mais onírico para mim. Na vida não acontece assim, não aconteceu assim. Entre eu e ela foi constante descompasso, mas tentamos com tanta inocência que era inevitável acreditar no impossível. Desisto do filme, é tarde, é hora de dormir. Já é tarde demais para ela gostar de mim, não há perdão para mim, e nem para ela. Vou para a cama fechar os olhos e tentar esquecê-la, como quem acorda de um sonho e vai fazer um café para encarar o dia.

domingo, 30 de agosto de 2009

O tal fruto proibido. Não era o sexo, o amor, nem assim literalmente o conhecimento do bem e do mal. Tudo isso passaria por irrelevante noutras condições para quem visse de muito longe e sem contexto. O fruto proibido era a memória. No paraíso éramos felizes porque não lembrávamos de nada. Por alguma sorte, só provamos deste pomo maldito uma vez e ainda conseguimos, eventualmente, esquecer. Só Deus não esquece de nada. Mas também não se importa.

sábado, 29 de agosto de 2009

"Para o homem da rua, a maioria das versões da ciência, da arte e da percepção afastam-se de várias maneiras do mundo útil familiar que ele atamancou a partir dos fragmentos da tradição científica e artística, a afastam-se também da sua própria luta pela sobrevivência. Este mundo, na verdade, é aquele que mais frequentemente se considera como real; porque a realidade num mundo, como o realismo num quadro, é largamente uma questão de hábito."

Nelson Goodman, Modos de se Fazer Mundos

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ontem minha melhor amiga me disse empolgada que a decoração da minha casa expressa perfeitamente a minha personalidade. Sei que ela pretendia me elogiar, mas fiquei pensando se isso realmente era positivo...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

As coisas hediondas que tenho feito por amor... Chego a especular se não tenho correndo nas veias qualquer sangue de um demônio apaixonado.


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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

exilado com Cartola

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"sim, deve haver o perdão..."


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domingo, 23 de agosto de 2009

Não há liberdade possível para quem não conseguir perdoar. O espírito rancoroso é como um pássaro que não consegue sair de uma gaiola aberta só porque não sabe que pode voar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

- Não acredito que perdi o meu domingo deprimido e vendo televisão!

- Mas quem foi que disse que o domingo era seu?

domingo, 2 de agosto de 2009

Pai, porque me abandonaste (à minha própria brutalidade)?

quinta-feira, 30 de julho de 2009

E me perguntam porque eu não viajo. Porra, todo o meu dinheiro é pra Psicanálise, Antidepressivos e Pilates. Eu sou o verdadeiro milagre da ciência: eu sobrevivo sem merecê-lo.

domingo, 19 de julho de 2009

o desgaste e a depreciação são a tendência irrefreável do devir da natureza. As coisas se desfiguram ou perdem sua aptidão cedo ou tarde e o uso tende a acentuar isto. Quando se paga o aluguel de um objeto, o que se está pagando é a depreciação no uso desta coisa. No preço das mercadorias industrializadas, pagamos, além da força de trabalho empregada, o desgaste das máquinas utilizadas. Se tudo fosse água, como pensava Tales, as coisas poderiam ser vistas como aquelas esculturas de gelo que só sobrevivem até a próxima primavera. Isso inquieta porque o mundo cultural em que vivemos está dado nestas coisas e também se perde junto com elas, o que prenuncia que nós mesmos estamos sobre a ação implacável do tempo. Não há muito o que se fazer diante do vaso quebrado, ou, ao contrário, tudo que se há de fazer começa a partir daí.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Jornal do Brasil: "Rio: morro está pacificado, ruas não"

Há uma mensagem subliminar na imprensa carioca que sugere que o poder do tráfico nas favelas devia ser preservado para nos proteger de um aumento de criminalidade no "asfalto", quer dizer, onde não é favela. Isto me deixa chocado. É mais do que a covardia e o comodismo que animavam o hipócrita romantismo da "cultura" e da "lei" mais "livres" e "justas" que se esperava ver nascerem na miséria dos morros cariocas. É, na verdade, uma imensa desumanidade com a população pobre desta cidade. É por isso que eu não acho que as milícias sejam o grande bicho papão da criminalidade no Rio de Janeiro e acho que se comprou tão rapidamente esta idéia com base nesta mentalidade de varrer a sujeira para onde ela não incomoda os cidadãos "de nível." O que incomoda ao carioca com relação à milícia é a desenvoltura com que ela pirateia nossos sistemas de serviços e se infiltra em nossos aparatos de Estado, e não a opressão que ela representa para as populações das favelas, a qual é, de longe, bem menos brutal, sanguinária e excludente do que a do tráfico.

O cerne do problema da violência nesta cidade não são as milícias, o tráfico internacional de armas e nem mesmo o modo de produção capitalista, que com vantagens ou desvantagens se estende hoje por toda a Terra mas que não se resolve me barbárie em todo lugar. O grande mal é este molambo que o carioca traz no lugar do coração enquanto se estende ao sol nas areias do leblon.