Hoje lembrei do Jesrael, que morreu em abril. Lembrei de uma ocasião em que estávamos na praia, por volta de 98, ele tocando seu violão e fumando um, eu olhando o mar. Eu estava um pouco melancólico neste dia, o que já era bem comum naquela época, e comentei que pensava em ter um cachorro.
- Cachorro é coisa de velho, François! Negócio é aventura, romance, conquista!
Na hora dei uma risada e concordei com gosto, até porque entendi que ele estava querendo levantar meu entusiasmo. E desisti do cachorro, pelo menos naquele momento.
Não sei porque lembrei disso justamente hoje. Deve ser por causa do calor, que me deu vontade de estar na praia e não percorrendo as ruas abafadas do Centro trajando uma calça comprida e essa minha cara que cada vez mais é a cara de um Oficial de Justiça.
Ou talvez seja porque semana passada morreu o Carlão, que era um cara lá do serviço com quem eu gostava de papear. Ele era um tipo bem peculiar. Um pouco gordo, já avançado na idade, passava o dia numa mesa da sala de distribuição, mesa sem computador, que ele não sabia nem ligar. Era meirinho como eu mas fazia interno, não sei bem por que acerto, parece que tinha problema de saúde e não podia fazer esforço físico, então arranjaram uma tarefa pra ele na distribuição. Tarefa bem significativa, aliás, a mesa dele ficava do lado dos escaninhos das áreas da cidade, que é a primeira triagem dos mandados lá no setor e o trabalho dele era pôr cada mandado no escaninho da área do endereço que nele constasse. Dali eles eram separados por logradouros próximos e distribuídos aos Oficiais. Ou seja, tudo que chegava passava pela mão do Carlão e era aí que vinha a ocasião pra boas conversas, porque este cara, ainda não o disse, era muito observador e bem humorado. A gente sempre podia contar que ele tivesse naquele dia selecionado alguma extravagância que ele bateu o olho antes de pôr o escaninho. Como apreciava uma boa piada, não raro deixava um pouquinho o mandado ali na mesa só pra mostrar pra alguém que fosse passar. Terminado o serviço habitual dele, o que não demorava muito, ficava sentado na mesa observando tudo que se passava, a espera de uma mancada ou maluquice de alguém para fazer pilhéria. Se tudo tivesse quieto demais, pegava o telefone e ligava pra portaria, começava a dar esporro nos vigilantes, que já conheciam ele e davam também umas boas risadas. E tudo isso com cara de sério, ele mesmo nunca ria, a gente é que se acabava.
Mas volta e meia tava doente, e a mesa dele ficava vazia uns dias. Numa dessas voltou mais magro, mas com o mesmo bom humor. Depois sumiu mais uns dias, voltou, sumiu de novo. Foi demorando, disseram que ele estava no hospital muito grave, falou-se em ir visitá-lo, considerou-se que era melhor não importunar a família, não sei o que deu, passou-se o tempo. Semana passada vi no mural o anúncio da missa de 7º dia, pra ver como eu sou desligado. Tinha perdido o enterro. A missa ia ser no dia 4, ontem. Acabei não indo. Porquê? Na hora resolvi não ir. Sempre fui a enterros, não perdi o de nenhum conhecido, um tanto que achava meu dever. Mas ontem me indaguei, o que tem que ver Carlão com missa? O que eu tenho que ver tanto e só eu com a morte? Conheço gente que não tem coragem de passar perto de um cemitério, que não foi a enterros que eu fui sendo mais amigo do morto só porque não queria ver de frente o fato. Porque eu sempre vou? Resolvi, não vou, desta vez não vou. Não fui. Nada mudou. O Carlão tinha morrido, o dia estava quente, de noite era Grêmio e São Paulo, e aquela garota não ia mesmo voltar pra mim. Isso foi ontem. Hoje lembrei do Jesrael.
Porque hoje, neste calor que deveria ser testemunhado à beira do mar e não na Avenida Rio Branco, dez anos depois daquela conversa na praia, eu pensava o que o Jesrael diria, agora que eu de fato tenho um cachorro e levo uma vida com pouca aventura, romance ou conquista. Talvez com nem pouca, talvez com nem nada disso, só uma vida. E então concluí, não diria nada, pois está morto. Dez anos se passaram, desde que eu dei aquela risada, eu tenho um cachorro, Jesrael morreu, o Carlão também, e estou aqui sozinho escrevendo novamente sobre a morte. Sozinho pode ser que não, está aqui o cachorro, que não tem muito a dizer sobre o assunto e prefere ficar deitado na frente do ventilador. Certo é ele, que vai morrer um dia e deixar o ventilador aí ventilando para ninguém. Certo era o Jesrael, que morreu pela vida que queria levar, e o Carlão, que deve ter constatado a graça disto tudo lá na UTI. Eu vou mais é ler aqui o Wittgenstein, antes que a minha hora também chegue.
- Cachorro é coisa de velho, François! Negócio é aventura, romance, conquista!
Na hora dei uma risada e concordei com gosto, até porque entendi que ele estava querendo levantar meu entusiasmo. E desisti do cachorro, pelo menos naquele momento.
Não sei porque lembrei disso justamente hoje. Deve ser por causa do calor, que me deu vontade de estar na praia e não percorrendo as ruas abafadas do Centro trajando uma calça comprida e essa minha cara que cada vez mais é a cara de um Oficial de Justiça.
Ou talvez seja porque semana passada morreu o Carlão, que era um cara lá do serviço com quem eu gostava de papear. Ele era um tipo bem peculiar. Um pouco gordo, já avançado na idade, passava o dia numa mesa da sala de distribuição, mesa sem computador, que ele não sabia nem ligar. Era meirinho como eu mas fazia interno, não sei bem por que acerto, parece que tinha problema de saúde e não podia fazer esforço físico, então arranjaram uma tarefa pra ele na distribuição. Tarefa bem significativa, aliás, a mesa dele ficava do lado dos escaninhos das áreas da cidade, que é a primeira triagem dos mandados lá no setor e o trabalho dele era pôr cada mandado no escaninho da área do endereço que nele constasse. Dali eles eram separados por logradouros próximos e distribuídos aos Oficiais. Ou seja, tudo que chegava passava pela mão do Carlão e era aí que vinha a ocasião pra boas conversas, porque este cara, ainda não o disse, era muito observador e bem humorado. A gente sempre podia contar que ele tivesse naquele dia selecionado alguma extravagância que ele bateu o olho antes de pôr o escaninho. Como apreciava uma boa piada, não raro deixava um pouquinho o mandado ali na mesa só pra mostrar pra alguém que fosse passar. Terminado o serviço habitual dele, o que não demorava muito, ficava sentado na mesa observando tudo que se passava, a espera de uma mancada ou maluquice de alguém para fazer pilhéria. Se tudo tivesse quieto demais, pegava o telefone e ligava pra portaria, começava a dar esporro nos vigilantes, que já conheciam ele e davam também umas boas risadas. E tudo isso com cara de sério, ele mesmo nunca ria, a gente é que se acabava.
Mas volta e meia tava doente, e a mesa dele ficava vazia uns dias. Numa dessas voltou mais magro, mas com o mesmo bom humor. Depois sumiu mais uns dias, voltou, sumiu de novo. Foi demorando, disseram que ele estava no hospital muito grave, falou-se em ir visitá-lo, considerou-se que era melhor não importunar a família, não sei o que deu, passou-se o tempo. Semana passada vi no mural o anúncio da missa de 7º dia, pra ver como eu sou desligado. Tinha perdido o enterro. A missa ia ser no dia 4, ontem. Acabei não indo. Porquê? Na hora resolvi não ir. Sempre fui a enterros, não perdi o de nenhum conhecido, um tanto que achava meu dever. Mas ontem me indaguei, o que tem que ver Carlão com missa? O que eu tenho que ver tanto e só eu com a morte? Conheço gente que não tem coragem de passar perto de um cemitério, que não foi a enterros que eu fui sendo mais amigo do morto só porque não queria ver de frente o fato. Porque eu sempre vou? Resolvi, não vou, desta vez não vou. Não fui. Nada mudou. O Carlão tinha morrido, o dia estava quente, de noite era Grêmio e São Paulo, e aquela garota não ia mesmo voltar pra mim. Isso foi ontem. Hoje lembrei do Jesrael.
Porque hoje, neste calor que deveria ser testemunhado à beira do mar e não na Avenida Rio Branco, dez anos depois daquela conversa na praia, eu pensava o que o Jesrael diria, agora que eu de fato tenho um cachorro e levo uma vida com pouca aventura, romance ou conquista. Talvez com nem pouca, talvez com nem nada disso, só uma vida. E então concluí, não diria nada, pois está morto. Dez anos se passaram, desde que eu dei aquela risada, eu tenho um cachorro, Jesrael morreu, o Carlão também, e estou aqui sozinho escrevendo novamente sobre a morte. Sozinho pode ser que não, está aqui o cachorro, que não tem muito a dizer sobre o assunto e prefere ficar deitado na frente do ventilador. Certo é ele, que vai morrer um dia e deixar o ventilador aí ventilando para ninguém. Certo era o Jesrael, que morreu pela vida que queria levar, e o Carlão, que deve ter constatado a graça disto tudo lá na UTI. Eu vou mais é ler aqui o Wittgenstein, antes que a minha hora também chegue.


